Nobre e glorioso é o intuito que prosseguimos mediante a vitória sobre nós mesmos; mas para consegui–lo, é necessário que nossa mortificação seja de bom quilate e possua qualidades muito peculiares.

Primeiramente, o domínio de nós mesmos deve constituir um princípio ao qual sempre nos devemos ater. Há alguns que consentem em vencer-se, porém de modo acidental, em determinadas ocasiões e, por assim dizer, excepcionalmente, por ser isso imprescindível, em razão dos inconvenientes que sobreviriam caso contrário. Isto não basta. É necessário que a mortificação seja em nossa vida um exercício habitual e metódico, admitido a priori como dever de estado.

Em segundo lugar, é necessário que a prática da vitória sobre nós mesmos abranja tudo. Não devemos negligenciar coisa alguma, por mínima que seja, mas usar constante vigilância em nosso corpo, na alma e em cada uma de suas potências: memória, inteligência, vontade, assim como em todas as nossas inclinações. Qualquer paixão descurada é um inimigo que deixamos atrás de nós, que pode nos atacar de improviso e causar nossa ruína.

Em terceiro lugar, o exercício da mortificação deve ser perseverante e ininterrupto. O inimigo não dorme, e o mal continua, em nossa alma, seu trabalho latente. É como uma erva daninha que prolifera, e força é termos a enxada sempre em mãos. Além disso, coisa difícil é o homem vencer a si mesmo, lutar incessantemente contra a própria natureza. Só o hábito e a prática é que podem atenuar essa dificuldade.

Enfim — e este é o último predicado que requer a vitória sobre nós mesmos —, é importante não nos limitarmos a permanecer na defensiva, mas tomar a ofensiva e estar sempre aparelhados para a arremetida. Esse princípio da ciência militar aplica-se, com toda a propriedade, ao combate espiritual. Logo, tomemos a dianteira, invistamos contra o inimigo antes que ele nos acometa, senão arriscamos a ser apanhados desprevenidos, e então a resistência virá tarde demais. É sempre mais fácil atacar do que defender.

No assalto, estamos em plena atividade e a vantagem é nossa; na defesa, ficamos passivos e em posição desvantajosa. “Se quiserdes a paz, preparai-vos para a guerra”, diziam os antigos. Se sentirmos, por exemplo, a tentação de ultrapassar certa medida que nos propusemos observar, relativamente à alimentação, ou de omitir ou abreviar as orações habituais, tomemos uma quantidade de alimento menor que a determinada e acrescentemos alguns instantes ao tempo fixado para a oração. Assim faz o soldado aguerrido do Reino de Cristo. É deste modo que nos tornaremos temíveis ao demônio.


O trecho acima nos apresenta, de forma breve, o segundo princípio pelo qual devemos nortear nossa vida interior: vencer-se. Ele encontra-se em nosso livro “A Vida Espiritual em Três Princípios”, escrito pelo Pe. Maurício Meschler, S.J.

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Por espírito de qualquer coisa, entende-se aquilo que constitui a sua essência, o âmago, o seu mais nobre elemento, o que lhe dá força, por assim dizer, a alma e a soma das condições sem as quais essa coisa não poderia existir. O espírito de oração é, pois, o princípio ativo da mesma, o que nos atrai e prende, o que a torna eficaz e nos permite realizar o glorioso fim.

Consiste ele em três requisitos. O primeiro é um alto conceito da oração, a íntima convicção de seu valor intrínseco. Devemos estar compenetrados não somente de que ela é um diálogo com Deus, compendiando-se nisso a sua excelência, mas também firmemente persuadidos de que é a melhor e mais útil das ocupações.

(…) É evidente que, para conceber grande estima pela oração, é necessário possuir uma compreensão justa de Deus. A falta desse conhecimento prévio é a causa do pouco apreço em que se tem pela prece, a ponto de ser ela muitas vezes negligenciada.

Em segundo lugar, devemos estar profundamente convictos da absoluta necessidade da oração para a vida espiritual, o progresso na virtude e até para a salvação eterna. Se, como acima foi dito, o pouco conhecimento de Deus é uma das causas de não darmos à prece o seu valor real, podemos acrescentar que a ignorância de nossa própria indigência muito contribui para esse deplorável erro. Negligenciamos a oração porque não estamos persuadidos de sua imprescindível necessidade. Urge convencermo-nos de que ela é um meio indispensável para conseguirmos a perfeição e obtermos a vida eterna, e que nenhum outro pode substituí-la. E assim é, não somente em razão do preceito formal do Senhor, mas também pela própria natureza das coisas.

Em terceiro lugar, o que constitui a força do espírito de oração é a confiança absoluta nesse apelo à misericórdia divina: “Pedi e recebereis.” Essa confiança consiste na íntima persuasão de que a prece humilde e perseverante tudo alcança. (…) Há no Catecismo uma palavra de ouro referente à oração: “A oração — nos é dito — transforma-nos em criaturas celestes.” O comércio com os sábios nos dá a sabedoria, o comércio com Deus nos deifica. Tudo em nós, pensamentos, princípios, sentimentos, intenções, tudo será semelhante a Deus. Aos poucos, a imagem divina imprime-se em nossa alma. A transformação opera-se lenta e insensivelmente, porém, de maneira profunda e duradoura. O que era penoso e desagradável torna-se fácil e suave; a sedução do mundo perde o encanto que exercia sobre nós. Só ansiamos por Deus e pela eternidade. Que vitória alcançada sobre a natureza! É o fruto da oração perseverante e da graça por ela obtida.


O trecho publicado acima diz respeito ao primeiro princípio que deve nortear nossa vida espiritual: a oração. Em nosso mais recente lançamento, “A Vida Espiritual em Três Princípios”, esse tema é abordado de forma aprofundada e completa, oferecendo-nos material necessário para cultivar em nosso coração um maior zelo por aquilo que deve ser o único negócio verdadeiramente importante: nosso crescimento interior e a salvação de nossa alma. Adquira já o seu em nosso site!



Meu amabilíssimo e dulcíssimo Salvador, penetrado de dor à vista de minha longa demora em amar-Vos com um amor sincero, generoso e dedicado; desejando finalmente sair de mim mesmo e dos estreitos limites do meu amor-próprio, e deixar os modos baixos e comuns deste amor mercenário, para sobre as asas de uma verdadeira dedicação tomar meu voo para vosso Divino Coração e nele fixar para sempre minha morada; a Vós totalmente me entrego!

Eu venho, meu dulcíssimo Salvador, sob a proteção de Maria, minha terna Mãe, de São José, de meu bom Anjo e dos celestes protetores da Guarda de Honra, pôr-me totalmente à vossa disposição.

Pretendo, de agora em diante, entregar-me, confiar-me e abandonar-me inteiramente a vosso amor; confiar-Vos o cuidado de tudo que me diz respeito, de tudo que me é caro… o cuidado de meus interesses, do tempo e da eternidade, só querendo ter um cuidado, que é o de amar-Vos sem reserva e entregar-me sempre mais filialmente a vosso dulcíssimo Coração. Renuncio, pois, a todo o temor, a todo o desejo e a toda a preocupação natural sobre minha alma, meu corpo, minha saúde, meu futuro.

Dando assim meu pleno consentimento a vosso amor, pretendo, ó Jesus, tornar-Vos o Rei absoluto de meu coração! Dignai-Vos, pois, desde já, dispor de tudo em mim e por mim e dirigir as circunstâncias que me devam fazer entrar neste caminho da perfeição que me mostrastes, pela vossa conformidade com a vontade de vosso Pai.

De hoje em diante, é um amor puro e generoso que desejo oferecer-Vos em reconhecimento do vosso — tão terno, tão misericordiosamente paternal para com minhas fraquezas, tão indulgente e tão bom para minha pobre miséria. Concedei-me a graça da perseverança final.

Meu Deus! Solicito-a humildemente e com todo o ardor de minha alma. Espero-a firmemente da infinita bondade do vosso adorável Coração, a quem só desejo amar, servir, glorificar, consolar por uma fidelidade sincera até a morte.

Quero viver unicamente para Vós e por vosso Coração adorável, a quem seja dada toda a honra, toda a glória, todo o louvor no Céu e na terra, no tempo e na eternidade! Amém.


Coração de Jesus que tanto nos amais, fazei que Vos amemos cada dia mais.

Festa do Sagrado Coração de Jesus do ano da graça de 2026.

Nas regiões de Toulouse, disputava Santo Antônio com um herege mui pérfido sobre o Santo Sacramento do salutar Corpo de Deus. Apesar de vencido, o herege não se convertia à Fé e, depois de muito discutir, propôs:

— Deixemo-nos de palavras e vamos a obras. Se tu fores capaz de mostrar com milagres, na presença de toda a gente, que no Sacramento está deveras o Corpo de Jesus Cristo, eu prometo deixar a heresia e submeter-me à Fé Católica.

E Santo Antônio, cheio de confiança, respondeu que assim faria.

E tornou-lhe o herege:

— Pois então vou fechar em casa um animal; atormento-o com a fome durante três dias, e ao fim trago-o perante todos os que quiserem assistir e ponho-lhe de comer. Neste entrementes virás tu com o Sacramento que dizes ser o Corpo de Jesus Cristo. Se o animal assim esfomeado parar de comer e se for com pressa para o Deus que, segundo afirmas, toda a criatura tem obrigação de adorar, podes ficar certo que imediatamente abraçarei a Fé da Igreja.

O santo varão de Deus logo sem tardança em tudo consentiu. E no dia aprazado ajuntou-se o povo na praça grande, e veio o dito herege na má companhia de outros hereges, e trouxe a mula que tinha atormentado com a fome, e também, para ela, iguaria apetitosa de comer. E Santo Antônio celebrou a Missa na capela que no lugar havia, e ao fim, à vista do povo, trouxe o Santíssimo Corpo de Jesus Cristo. E, mandando a todos que se calassem, disse para a mula:

— “Ó animal, em virtude e em nome do teu Criador, Aquele que eu, embora indigno, tenho aqui presente em minhas mãos, ordeno e mando que venhas já sem demora até Ele e humildemente Lhe prestes reverência, para que desse modo veja a maldade dos hereges que toda a criatura é sujeita ao Criador a quem a dignidade do sacerdote trata cada dia nos altares.”

E, entretanto, o herege punha de comer à mula esfomeada.

Oh, maravilha de contar! O animal, apesar de tão atormentado pela fome, quando ouviu as palavras de Santo Antônio, logo parou de comer, e abaixou a cabeça, e caiu de joelhos diante do Sacramento.

Pelo que muito se alegraram os fiéis católicos, e merecidamente saíram confundidos os hereges. E aquele dito herege logo ali se fez fiel, conforme havia prometido, e obedeceu aos mandamentos da Igreja.

  1. Jesus. Fui morto, filho, e eis que vivo pelos séculos dos séculos.
    Descera de junto ao Pai e viera ao mundo. Deixei o mundo para voltar ao Pai (Jo 16, 28).

Todavia, o amor do meu Coração não permitia nem sofria que deixasse órfãos aqueles que Eu amava mais que a minha vida.

O amor do Pai me convidava para ser glorificado junto dele na claridade que a seu lado já tive, antes que o mundo existisse (Jo 17,5).

Ao invés, o amor aos homens me convidava e obrigava a que permanecesse, para consolá-los em toda tribulação desta vida. E eis que o meu Coração inventou um meio de satisfazer o meu amor para com o Pai, bem como o amor para com os homens.

E um mistério, filho, que eu, depois de subir ao Céu, estou assentado à direita de Deus e, contudo, permaneço convosco até à consumação dos séculos. Mistério, que nenhum mortal jamais imaginaria, se Eu não o tirasse do meu Coração. Mistério transcendente a toda a natureza criada. Mistério, enfim, que excede todo o poder finito.

Havia mister, pois, milagres estupendos, possíveis tão somente pela onipotência divina. Mas o amor triunfa. O amor que no meu Coração Divino concebeu a ideia, ali também achou a força para realizá-la.

Tudo me é possível e tudo me é fácil, quando o quer meu Coração, cujo querer é idêntico com o poder e o realizar.

📖 Livro: Imitação do Sagrado Coração de Jesus, páginas 495, 496.