Como Deus se serviu da figura de São José para ocultar o Redentor até a hora da Cruz

Prezados leitores, convidamos vocês a contemplarem, neste breve recorte da obra Os Ensinamentos de Nazaré, do Pe. Júlio Maria de Lombaerde, as virtudes daqueles que, não por acaso, foram chamados de “A Santíssima Trindade na terra”. 

De modo particular, porém, meditaremos o papel da figura de São José no plano da Redenção, o qual, com sua simplicidade e seu silêncio tão característico, foi pensado desde a eternidade para ser o grande véu de Deus. 

Leiamos com atenção: 


Antes de nos determos na contemplação das diferentes virtudes, que brilham em Nazaré de modo tão singular, será bom nos demorarmos um momento junto ao chefe da Sagrada Família, para que analisemos bem a sua missão sublime, e para que estudemos o caráter desta figura eminentemente simples, tranquila, silenciosa e sobretudo obscura, que é menos uma figura do que uma sombra.

São José, apesar de viver sempre perto de Jesus e para Jesus, tem, entretanto, com Ele, relações mais afastadas do que as de Maria. Ele não é o pai do Divino Infante, como Maria é a sua Mãe; ele é, antes, o seu condutor, o seu protetor, o seu pai nutrício e, sobretudo, o seu véu.

(…)

Ele é o chefe da Sagrada Família, para conduzi-la, regê-la e nutri-la; mas ele é, ao mesmo tempo, o grande véu que Deus lançou por sobre estes inefáveis e refulgentes mistérios, a fim de atenuar-lhes o brilho aos olhos do mundo, e permitir a Jesus e a Maria desempenhar o seu grande papel: o primeiro, de Redentor, a segunda, de Corredentora, sem que a ação deles resplandeça antes do mistério da Cruz. 

José e a Cruz! Já pensamos, porventura, em aproximar estas duas coisas, entretanto tão correlativas? Serviu-se Deus de José para ocultar a vinda do Redentor, e serviu-se da Cruz para fazê-Lo triunfar para sempre no mundo.

(…)


O inferno não pode deixar de ficar inquieto com o nascimento da Virgem Imaculada. Quem era esta criatura, que escapava assim ao ferrete da dominação do pecado? Não seria a Virgem que deve conceber, predita pelos profetas? 

A astuciosa serpente estava inquieta… ela duvidava! Mas Deus frustra o seu ardil. Ele escolhe São José para ser o esposo desta Virgem temida. 

— Não, não —  escarnece Satanás —, não é aquela que deve gerar o Salvador; não é ela a esposa do carpinteiro José?

Jesus acaba de nascer. 

Os anjos entoam o seu cântico. 

Satanás espreita… 

Não será o Messias?…

Mas José está aí; e quando o Divino Infante estende as mãozinhas para o pobre operário e o chama de pai, o maldito tranquiliza-se…

 — Não, não —  exclama ele —, este não é o Filho da Virgem, este é o filho do carpinteiro!

Jesus cresce em idade e em sabedoria… 

Aos doze anos Ele confunde os doutores e os sábios de Jerusalém. 

O demônio diz ainda de si para si: — Mas donde vem a este menino tanta sabedoria, tanta piedade, tanta visão sobrenatural?…

Mas fica em breve sossegado: Maria e José vêm procurar o Menino no Templo, e a Mãe de Jesus diz: “Meu filho, teu pai e eu andávamos te procurando aflitos.” E o próprio povo pergunta admirado: Não é este o filho do carpinteiro?

 — Não, não — ruge ainda Satanás —, este filho de Maria nada faz recear; deixemo-lo em paz, na oficina com o seu pai.

É assim que, em toda parte, o inferno é derrotado: em todo lugar em que alguma coisa O faz sobressair, quer pela Virgem, quer pelo Filho, José intervém e lança sobre o acontecimento o véu de sua obscuridade. E, deste modo, permite ao Salvador preparar de longe o grande triunfo, sem que alguém O repare. E assim todas as suspeitas do inferno são desconcertadas, até o dia em que, fazendo retumbar repentinamente a sua força e a sua glória, exclama o Redentor, dirigindo-se ao mundo, na pessoa de São João: Ecce Mater tua — Eis a vossa Mãe!

Neste momento, Aquela que o demônio tomara simplesmente por uma mulher piedosa, pela viúva do carpinteiro, aproxima-se da Cruz, põe triunfalmente o pé sobre a cabeça da serpente, e exclama juntamente com o seu Filho expirante: Tudo está consumado!

Nesta hora, Lúcifer, perturbado, sente o pé da Virgem esmagar-lhe a cabeça de serpente, e tenta morder-lhe o calcanhar. 

Torce-se em vão, enrosca-se sobre si mesma; cada vez mais fortemente, o pé da Virgem a esmaga. 

“Horror! Vergonha! Estamos vencidos!” — urra todo o inferno. “A viúva do carpinteiro triunfou de nós; era ela a Virgem predita. Este Jesus é o seu filho e o filho de Deus.” 

Tal é o estratagema divino de Deus, e a parte importante que nele tomou São José.

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