Por espírito de qualquer coisa, entende-se aquilo que constitui a sua essência, o âmago, o seu mais nobre elemento, o que lhe dá força, por assim dizer, a alma e a soma das condições sem as quais essa coisa não poderia existir. O espírito de oração é, pois, o princípio ativo da mesma, o que nos atrai e prende, o que a torna eficaz e nos permite realizar o glorioso fim.

Consiste ele em três requisitos. O primeiro é um alto conceito da oração, a íntima convicção de seu valor intrínseco. Devemos estar compenetrados não somente de que ela é um diálogo com Deus, compendiando-se nisso a sua excelência, mas também firmemente persuadidos de que é a melhor e mais útil das ocupações.

(…) É evidente que, para conceber grande estima pela oração, é necessário possuir uma compreensão justa de Deus. A falta desse conhecimento prévio é a causa do pouco apreço em que se tem pela prece, a ponto de ser ela muitas vezes negligenciada.

Em segundo lugar, devemos estar profundamente convictos da absoluta necessidade da oração para a vida espiritual, o progresso na virtude e até para a salvação eterna. Se, como acima foi dito, o pouco conhecimento de Deus é uma das causas de não darmos à prece o seu valor real, podemos acrescentar que a ignorância de nossa própria indigência muito contribui para esse deplorável erro. Negligenciamos a oração porque não estamos persuadidos de sua imprescindível necessidade. Urge convencermo-nos de que ela é um meio indispensável para conseguirmos a perfeição e obtermos a vida eterna, e que nenhum outro pode substituí-la. E assim é, não somente em razão do preceito formal do Senhor, mas também pela própria natureza das coisas.

Em terceiro lugar, o que constitui a força do espírito de oração é a confiança absoluta nesse apelo à misericórdia divina: “Pedi e recebereis.” Essa confiança consiste na íntima persuasão de que a prece humilde e perseverante tudo alcança. (…) Há no Catecismo uma palavra de ouro referente à oração: “A oração — nos é dito — transforma-nos em criaturas celestes.” O comércio com os sábios nos dá a sabedoria, o comércio com Deus nos deifica. Tudo em nós, pensamentos, princípios, sentimentos, intenções, tudo será semelhante a Deus. Aos poucos, a imagem divina imprime-se em nossa alma. A transformação opera-se lenta e insensivelmente, porém, de maneira profunda e duradoura. O que era penoso e desagradável torna-se fácil e suave; a sedução do mundo perde o encanto que exercia sobre nós. Só ansiamos por Deus e pela eternidade. Que vitória alcançada sobre a natureza! É o fruto da oração perseverante e da graça por ela obtida.


O trecho publicado acima diz respeito ao primeiro princípio que deve nortear nossa vida espiritual: a oração. Em nosso mais recente lançamento, “A Vida Espiritual em Três Princípios”, esse tema é abordado de forma aprofundada e completa, oferecendo-nos material necessário para cultivar em nosso coração um maior zelo por aquilo que deve ser o único negócio verdadeiramente importante: nosso crescimento interior e a salvação de nossa alma. Adquira já o seu em nosso site!



Escreve Santo Agostinho que nenhuma coisa convém tanto à alma como obedecer; e, para a criatura racional, a obediência é como mãe e guarda de todas as virtudes. Vale mais — diz o Santo — que a mesma continência, pois o matrimônio nunca foi reprovado pelas Sagradas Escrituras, mas sim o foi a desobediência.

Luta medonha se apresentou no coração de Santa Rita entre o amor à virgindade e a obediência a seus pais. Para se consolar acudiu à oração, disposta a sujeitar sua vontade à divina. O Senhor inspirou-lhe que a obediência é melhor que o sacrifício, e, ao mesmo tempo, comunicava-lhe forças para carregar sobre seus ombros a pesadíssima cruz que lhe oferecia. Que podia temer aquela alma? Resolveu aceitar o jugo do matrimônio e entregar-se ao homem cujos costumes seriam motivo para o exercício das mais excelentes virtudes da esposa.

Muitas vezes pretendemos resolver dúvidas, acalmar nossas aflições e tranquilizar nosso espírito, acudindo aos meios que nos proporciona a natureza, e, longe de desaparecerem as inquietações, elas aumentam, e nos submergimos no insondável abismo da desesperação. A matéria não pode acalmar as angústias do espírito; estas se aquietam acudindo a Deus, em cujas mãos encontra-se a sorte e o destino do homem. E a Deus se deve acudir com humildade, expondo-lhe com fervor nossas necessidades, nossas aflições e sofrimentos. Por isso, Santa Rita acudiu ao Senhor neste aperto, suplicando-lhe iluminar seus entendimentos e inclinar sua vontade para aceitar as determinações de seus pais.

Não esqueçamos nunca o que diz São Francisco de Sales, de que não há coisa alguma que tanto purifique o entendimento da ignorância e a vontade dos maus afetos, como a oração. Nossos caprichos e, às vezes, os desejos que parecem bons, procedem da ignorância e, ainda mais, da presunção que, em muitas ocasiões, se encobre debaixo das aparências de virtude. Mas, mesmo que assim não fosse, o sacrifício de nossa própria vontade, a obediência aos que, segundo a lei santa do Senhor, podem e devem mandar-nos, deve constituir a base, o fundamento único das nossas ações.

Reflexões

A resistência em submeter o nosso juízo ao dos outros é geralmente o vício que nos domina. Jesus Cristo obedeceu a seu Eterno Pai até à morte; é preciso que nossa obediência se identifique com a do Divino Mestre.


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