O Purgatório, as penas das almas e os sufrágios oferecidos em seu favor são assuntos que dizem respeito à vida de todo católico. Conhecer o ensinamento da Igreja sobre essa purificação ajuda-nos a compreender a gravidade do pecado, a necessidade da penitência e a caridade que devemos às almas dos fiéis defuntos.

O texto a seguir, retirado do nosso devocionário Mês das Almas do Purgatório, apresenta os fundamentos dessa doutrina, explica o estado das almas do Purgatório e trata do auxílio que podemos prestar-lhes.

O que é o Purgatório?

O Purgatório é um lugar de sofrimento em que as almas dos que morrem em estado da graça, mas sem haver satisfeito à justiça divina quanto à pena temporal incorrida por seus pecados, acabam de se purificar, solvendo essa dívida para poderem ser admitidas no Céu, onde, conforme a Escritura, só entrará quem for puro.

Quais são as provas da existência do Purgatório?

As provas da existência do Purgatório podem ser tomadas:

Da Sagrada Escritura

O Antigo Testamento mostra-nos Judas Macabeu recolhendo duas mil dracmas, espólio de uma vitória memorável, e remetendo-as para Jerusalém, a fim de que se oferecessem sacrifícios pelas almas dos que haviam perecido no combate, por ser, dizia ele, um pensamento pio e salutar o de orar pelos mortos para que se resgatem de suas faltas.1

O Novo Testamento refere-nos estas palavras de Jesus Cristo bem claras e precisas: “Há pecados que nunca são remetidos, nem neste mundo nem no outro” (Mt 12, 31s). Haverá, portanto, pecados que serão perdoados na outra vida. Não são menos frisantes estas outras palavras da parábola do credor: “Há uma prisão donde não se sairá senão quando se tiver pago o ceitil derradeiro.” (Mt 5, 26) — E estas de São Paulo: “Haverá, no último dia, um fogo que destruirá as obras de certas almas, que só então salvar-se-ão.” (1Cor 3, 13s)2

O testemunho da Tradição e do Concílio de Trento

Da Tradição inteira, à qual deu o Concílio de Trento esta ratificação infalível:

“Se alguém pretender que todo pecador penitente, quando recebe a graça da justificação, obtém a remissão da culpa e da pena eterna de tal sorte que não fica devedor de nenhuma pena temporal a sofrer na terra ou na vida futura, no Purgatório, antes de entrar no Reino dos Céus: seja anátema!”3

As razões apresentadas por São Boaventura

Da razão, finalmente, como São Boaventura, com sua lucidez ordinária, expõe nestes termos:

“O Purgatório deve existir por muitas causas:

A primeira, como observa Santo Agostinho, é que há três ordens de pessoas: umas inteiramente más, e a essas não aproveitam os sufrágios da Igreja; outras inteiramente boas, que não precisam de tais sufrágios; outras, enfim, que não são de todo más nem de todo justas, e a estas cabem as penas passageiras do Purgatório, porque suas faltas são veniais.

A segunda causa é a própria justiça de Deus, porque assim como a soberana bondade não sofre que o bem fique sem remuneração, assim a suprema justiça não permite que o mal fique sem nenhuma punição…

A terceira razão para que haja um Purgatório é a sublime e santíssima dignidade da luz divina que somente olhos puros devem contemplar. É preciso, pois, que volte cada um à sua inocência batismal antes de comparecer na presença do Altíssimo.

Além disso, todo pecado ofende a Majestade Divina, é prejudicial à Igreja e desfigura em nós a imagem de Deus.

Ora, toda ofensa pede um castigo, todo dano, uma reparação, todo mal, um remédio; portanto, é necessário também (neste mundo ou no outro) uma pena que corresponda ao pecado.

Ademais os contrários ordinariamente curam-se com os contrários, e como o pecado nasce do prazer, o castigo vem a ser o seu remédio natural.

A ninguém pode aproveitar a negligência, que é um defeito, e, se tal defeito não fosse punido, pareceria de vantagem para a vida futura não cuidar de fazer penitência neste mundo.” (Comp. Teol., 7)

Quais são as penas do Purgatório?

A revelação que nos fala claramente da existência de um Purgatório não se explica tão claramente sobre o estado em que se acham as almas que precisam purificar-se: não podemos, portanto, saber com exatidão nem onde elas sofrem, nem o que sofrem, nem de que modo sofrem.

Só podemos afirmar que as penas do Purgatório são extremamente graves e de duas espécies: a primeira, a mais insuportável, diz o Concílio de Florença, é a privação de Deus.

A necessidade de ver e possuir a Deus, que a alma, desprendida do corpo, compreende ser o objeto único de sua felicidade: essa necessidade se faz sentir a todas as nossas faculdades com uma força extraordinária.

É uma sede ardente, é uma fome devoradora, é um vazio medonho, uma espécie de asfixia produzida pela ausência de Deus, que é o alimento e o ar de nossa alma.

A segunda é uma dor que põe a alma em torturas mais cruéis do que as que os tiranos infligiam aos mártires.

A Igreja não definiu a natureza desta dor, mas permite ensinar-se geralmente que há no Purgatório, como no inferno, um fogo misterioso que envolve as almas sem consumi-las; e, diz La Luzerne, conquanto não seja um artigo de fé, todas as autoridades dão tanto peso à doutrina de um fogo expiatório que seria temeridade desprezá-la.

Quais são as causas do Purgatório?

São duas as causas do Purgatório:

1. A falta de satisfação suficiente pelos pecados remetidos. É de fé que Deus, perdoando os pecados cometidos depois do batismo e a pena eterna devida a esses pecados quando são mortais, deixa ordinariamente ao pecador já reconciliado a dívida de uma certa pena temporal que ele há de solver nesta vida ou na outra.

2. Os pecados veniais de que os justos podem estar maculados quando partem deste mundo.

Como estão as almas do Purgatório?

Conquanto padecendo os mais cruéis tormentos, não se abandonam as almas do Purgatório à impaciência nem ao desespero: estão na graça e na caridade, e sua vontade tanto se conforma com a vontade divina que elas querem com alegria tudo o que Deus quer.

Adoram a mão que as castiga e, por mais desejos que tenham de seu livramento, não o almejam senão na ordem dos decretos divinos.

Consolam-se com a certeza que têm de não ofender mais a Deus e de ir, um dia, possuí-Lo no Céu por toda a eternidade.

Quanto tempo duram as penas do Purgatório?

Essas penas durarão pouco em relação às penas do inferno, que são eternas, mas, consideradas em si mesmas, podem durar muito tempo.

A Igreja autoriza os sufrágios de aniversário por muitos anos e até durante séculos, o que faz supor que as almas podem ficar todo esse tempo no Purgatório. Autores respeitáveis, entre outros Belarmino, admitem que haja pecadores detidos no Purgatório até o fim do mundo.

Como ajudar as almas do Purgatório?

Há entre os fiéis vivos e os fiéis mortos comunicação das boas obras.

“A Igreja Católica, esclarecida pelo Espírito Santo, aprende nas Divinas Escrituras e na antiga Tradição dos Santos Padres e tem ensinado nos grandes Concílios que há um Purgatório, e que as almas detidas nesse lugar são socorridas pelos sufrágios dos fiéis e principalmente pelo precioso Sacrifício do Altar.”4

O Corpo Místico de Jesus Cristo se compõe de três Igrejas bem distintas: a Igreja triunfante no Céu, a Igreja padecente no Purgatório e a Igreja militante na terra.

Essas Igrejas, distintas em razão de sua situação diversa, compõem realmente um só corpo, do qual Jesus Cristo é a cabeça; e em virtude da comunhão dos Santos, que professam no Símbolo, elas se prestam mútuo auxílio. Tal é a magnífica harmonia do corpo da Igreja Católica.

Não podemos nunca, diz o Catecismo Romano, exaltar e agradecer devidamente a inefável bondade divina que outorgou aos homens o poder de satisfazer uns pelos outros e pagar assim o que é devido ao Senhor.

As almas do Purgatório rezam por nós?

É certo que as almas do Purgatório não podem merecer para si, mas ensinam comumente os teólogos, diz Monsenhor Devie, que se lhes pode fazer súplicas e que Deus se digna atendê-las, quando elas exercem a caridade para conosco, pedindo o que é necessário.

Os Santos no Céu, acrescenta esse prelado, não podem merecer para si; entretanto eles pedem por nós. É a doutrina de Belarmino, de Suárez, de Lessio e de Ligório.

“As almas que penam, diz Belarmino, são santas, oram como os Santos; e são escutadas em razão de seus méritos anteriores.”

“A opinião de que as almas do Purgatório oram por nós, diz Suárez, é muito pia e muito conforme à ideia que temos da bondade divina: não é em nada errônea.”

“Os mortos, observa ainda Belarmino, podem vir em nosso auxílio, porque os membros devem imitar a cabeça, o chefe Jesus Cristo… Há de se dar a reciprocidade entre os membros de um mesmo corpo: assim como na Igreja os vivos socorrem os mortos, os mortos devem socorrer os vivos, cada um a seu modo.”

Todavia a Igreja em seu culto externo não pratica a invocação das almas do Purgatório.

As almas do Purgatório podem aparecer aos vivos?

1. Estas aparições estão na ordem das coisas que Deus pode permitir e não repugnam a nenhuma das suas perfeições.

Mas as almas do Purgatório, privadas dos seus corpos, não podem por força própria entrar em comunicação com o mundo sensível: é preciso um prodígio para que isto se realize.

2. A Sagrada Escritura faz menção de aparições de mortos, como de Samuel a Saul, de Jeremias e do grão-sacerdote Onias a Judas Macabeu, de muitos que saíram do túmulo na morte de Jesus Cristo e foram vistos em Jerusalém.

3. Um grande número de aparições que se contam é imaginária, mas é certo que as têm havido verdadeiras, até mesmo em tempos não remotos.

Santo Agostinho, S. Bernardo, S. Gregório Magno e S. Afonso de Ligório referem várias, e seria mais do que temerário acusá-los de mentira ou de imbecilidade.

Santo Tomás de Aquino diz: “As almas dos mortos manifestam-se algumas vezes por uma disposição particular da Providência para se ocuparem de coisas humanas.”⁵

4. A Igreja não condenou, em tempo nenhum, esta crença. Cumpre dizer também que ela nunca sancionou com sua autoridade a autenticidade absoluta de nenhuma aparição citada pelos Santos.

5. Sendo as almas do Purgatório santas, boas e caritativas conosco, quando têm de Deus a permissão de nos aparecer, não é evidentemente senão para testemunhar seu amor ou invocar o nosso: longe, pois, de nos causar terror, uma aparição deveria alegrar-nos.

Assim, devemos ter como alucinação fantasmagórica, conto de pura invenção, toda aparição que só tenha por fim apavorar os vivos. É uma indignidade prestar este papel a almas santas.

Conheça a obra Mês das Almas do Purgatório

A oração pelos fiéis defuntos é um exercício de caridade que podemos cultivar ao longo de todo o ano. Para acompanhar essa prática, conheça a obra Mês das Almas do Purgatório, publicada pela Editora Domus Aurea.


  1. Cf. 2Mac 12, 43–46. ↩︎
  2. O escritor não cita ipsis verbis os textos, mas dá o seu sentido exato. (do Trad.) ↩︎
  3. Concílio de Trento, Sessão VI, Cânon 30. ↩︎
  4. Concílio de Trento, Sessão XXV. ↩︎

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